Com mais seções e informações, revista da pós passa a três edições anuais. Distopia é o tema da próxima

Os dez textos reunidos na edição 42 da Alceu revigoram o compromisso em conjugar comunicação, cultura, política, e irrigar reflexões com constantes diálogos entre os campos do saber. Com abordagens diversas, os textos reforçam a proposta da revista, incorporada ao Programa de Pós-Graduação (PPGCOM) do Departamento de Comunicação da PUC-Rio, de estimular e valorizar a pluralidade de visões e a densidade científica. A Alceu 42 também inaugura a periodicidade quadrimestral (três edições por ano) e consolida avanços editoriais e técnicos desenvolvidos ao longo (e apesar) deste ano difícil.

À tradição de duas décadas de vida, comemoradas em julho, somam-se as estreias ainda do padrão bilíngue dos artigos; das seções de entrevista, de tradução e de resenhas de livros; do novo ambiente digital, com mais funcionalidades e informações para leitores, autores, pareceristas, como a melhor visualização dos metadados (estatísticas). Novidades que revitalizam a excelência editorial e alinham totalmente a Alceu às diretrizes da Capes.

O pluralismo da revista manifesta-se logo no texto de abertura da edição 42: uma rica entrevista feita pelo professor titular (aposentado) da Universidade Estadual Paulista Marco Aurélio Nogueira, doutor em Ciência Política (USP), com o cineasta, escritor e jornalista João Batista de Andrade, ex-secretário de Cultura de São Paulo. O diretor do premiadíssimo O homem que virou suco, prestes a completar 40 anos, relembra passagens marcantes da vida e da obra dedicadas a capturar o universal da experiência humana.

Aos 81 anos, o intelectual nascido em Ituiutaba, Minas, reitera o entrelace entre a produção artística e a militância política. Com a habitual acuidade, ele alerta para um esgotamento cultural decorrente de um “envelhecimento problemático de ideias filosóficas, das utopias, das chamadas ciências sociais e da política”. A cultura, propõe João Batista de Andrade, precisa deixar de ser “lugar de privilégio” para consumar-se “lugar de libertação”.

O texto seguinte, de Alexandre Silva Guerreiro, também transita na esquina entre as produções cinematográficas e a crítica social. Ao mergulhar no universo dardenneano – e seus personagens às voltas com dilemas morais, num cenário de desumanização –, o artigo “Ética e encenação no cinema dos irmãos Dardenne: de A promessa a O jovem Ahmed” reflete sobre a influência dos ditames éticos nos filmes de Jean-Pierre e Luc Dardenne.

Na sequência, Márcia Gomes Marques e Gedy Brum Weis Alvesf evocam outro recorrente diálogo cinematográfico. Como indica o título, “Cinema e literatura: transposição intermidiática da história de um defunto autor”, as pesquisadoras investigam, sob a perspectiva da intertextualidade e da hipertextualidade, a relação entre Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance escrito por Machado de Assis em 1881, e o filme Memórias Póstumas, de 2001. Elas apontam os elementos que se mantêm, os que se renovam e os que não se concretizam na obra adaptada.

­­­A literatura também é o pano de fundo de “Livro-aplicativo: experiências mediadas por conflitos dados na materialidade”. O artigo de Carina Ochi Flexor e Tatiana Guenaga Aneas vai ao encontro de um dos desdobramentos da reconfiguração midiática derivada das tecnologias digitais: a gamificação. Ao observarem processos de convergência, discutem as imbricações entre livro-aplicativo e jogo inseridas na experiência do leitor-jogador. Elas observam tensões referentes a vivências fixadas no deslumbramento midiático.

O contexto cibercultural prolonga-se no texto seguinte: “Cultura digital: Sob reflexos (Eco) e fluxos (Flusser)”. A partir de posicionamentos integrados e apocalípticos de Umberto Eco frente a inovações tecnológicas e do olhar crítico de Vilém Flusser acerca dos impactos da tecnologia na cultura, Olira Saraiva Rodrigues e Cleomar de Souza Rocha buscam desconstruir mitos e concepções deterministas em torno das mudanças comportamentais relacionadas à revolução digital.

As novas tecnologias da informação permeiam também o artigo seguinte. Em “Distribuição de jornais comunitários, interação e participação na comunicação contemporânea”, Marcelo Ernandez Macedo desloca o foco das teorias comunicacionais – centrado na produção e na recepção de conteúdos informacionais – para a instância distributiva das informações. Com base na história da distribuição de periódicos impressos e na análise de entregas de jornais comunitários, o autor testa a hipótese de que a horizontalidade na comunicação depende menos das novas tecnologias da informação do que do modo como se valoriza a dialogia nos processos comunicativos.

Já Leonardo de Marchi e Gabriel Gutierrez constroem uma ponte entre os novos horizontes midiáticos e o mercado musical. Em “A mídia somos nós – as transformações da indústria fonográfica e o modelo de negócios dos Racionais MC’s”, eles avaliam o modelo de negócio do grupo nascido na periferia paulistana para compreender como o rap tem se articulado com a indústria fonográfica brasileira.

A convergência das mídias revela-se ainda o ponto de partida para a pesquisa de Noel dos Santos Carvalho e Gustavo Padovani, apresentada no artigo “O mundo multiplataforma Kondzilla: inovação no modelo ne negócio audiovisual”. Eles investigam o universo multiplataforma germinado pelo maior canal de música do YouTube brasileiro, com quase 60 milhões de seguidores. Um fenômeno que ganha corpo com a série ficcional Sintonia (Netflix, 2019) e o portal próprio de produção de conteúdo.

O som também conduz a triangulação orquestrada por Ney Costa Santos no ensaio “Tom Jobim e a música da Casa Assassinada”. Ele analisa a trilha composta pelo maestro para o filme dirigido por Paulo Cesar Saraceni em 1971, adaptação do romance “Crônica da Casa Assassinada”, obra-prima de Lucio Cardoso.  Com um lirismo bem brasileiro, avalia Ney, as variações melódicas de Jobim vão muito além da funcionalidade da música para o cinema. Constituem um “milagre, como o canteiro de violetas entre a fogueira das paixões que consomem a casa e os personagens e a delicadeza do perfume das flores no jardim abandonado”.

Fecha esta edição a resenha de Luíza Alvim sobre o livro Rostos de Bergman: vida e morte em um plano. Organizado por Gustavo Chataignier, Tatiana Siciliano, Liliane Heynemann e Luiz Baez, reúne apreciações de diversos autores sobre sete filmes: Morangos silvestres, O sétimo selo, Gritos e sussurros, A hora do Lobo, Persona, Sonata de outono e Saraband. Luíza destaca o equilíbrio preciso da publicação: “entre textos de apresentação e textos analíticos, de vieses filosóficos, psicanalíticos e outros, a coletânea nos traz rostos imagéticos e sonoros da vida e da morte, duo fundamental na obra do diretor sueco”.

A próxima edição da Alceu (43) está programada para abril de 2021. A revista passa ser coeditada pela professora Vera Follain de Figueiredo, ao lado de Alexandre Carauta. Ela substitui Gustavo Chataignier, que abraça outros voos acadêmicos. Parte de Vera a sugestão do eixo temático da edição 43: Distopia e narrativas contemporâneas: a difícil arte de imaginar o futuro.

O dossiê abarca reflexões, em perspectivas diversas, sobre as implicações estéticas, éticas e políticas da representação apocalíptica do futuro, na produção cultural das duas últimas décadas. Não obstante este eixo temático, do qual os editores convidam a comunidade científica a participar, a revista conserva a recepção de textos em fluxo contínuo.

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