Nos pilotis, salas, corredores, Drauzio era um feixe de prosas

“Com Drauzio, a sala dos professores se transformava sempre em encontros felizes. Reuniam-se afetos que estimulavam reflexões e debates acalorados”. Era exatamente assim. A recordação afetiva da colega Tatiana Siciliano, diretora do Departamento de Comunicação, resume a eloquência contagiante do professor Drauzio Rodrigo Macedo Gonzaga, vencido pelo câncer nesta segunda-feira (15). As salas dos professores – da PUC-Rio, da Facha, da Uerj e de outras universidades por onde passou – ficam menos efervescentes.

Doutor em Filosofia pela UFRJ, na qual se graduou em Ciências Sociais, Drauzio era sinônimo de uma boa resenha. Atiçava o debate nos intervalos das aulas, nos pilotis, nos corredores. “E nos encontros repentinos no Lamas, na Majorica. Sempre conversas animadas”, completa a ex-aluna, hoje professora, Marcylene Capper. Ela arremata: “É meu eterno professor”. Uma admiração comum a sucessivas gerações de estudantes.

À fala fácil, Drauzio somava uma inquietação reflexiva para a qual convergiam comunicação, filosofia, sociologia, política, cinema. A mistura despertava o reconhecimento e os sorrisos de colegas, alunos, funcionários. Embalava prosas muitas vezes inflamadas, invariavelmente regadas de humor, ironia, generosidade intelectual. “O mundo acadêmico fica mais pobre”, lamenta o professor da PUC-Rio Célio Campos.

O gosto pela resenha era tão marcante quanto a habilidade pedagógica apurada por quase meio século de vida universitária. “Drauzio sabia passar todo o seu conhecimento por meio de metáforas maravilhosas, inteligentes”, destaca a aluna de Publicidade Jéssica Correa, acrescentando: “Para aqueles mais atenciosos, o conteúdo ia muito além do saber. Era para a vida”. Ora, o que mais se pode querer de um professor?

Já o estudante de Cinema Gabriel Carvalho recorda as referências a Ingmar Bergman:

“Não sei quantas vezes o professor Drauzio citou O Ovo da Serpente, de Bergman. Mas toda vez era como se fosse a primeira. Não cansava. Com aquela voz característica, rouca mas potente, ele dizia: ‘Bergman não era um mestre porque sabia manusear uma câmera, mas pelo que pensava com ela’. Jamais esqueci disso, assim como dos encontros sempre alegres pelos corredores. Sua seriedade não apagava sua felicidade. Drauzio é inesquecível, como Bergman”.

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