Marcelo Lins e Arthur Ituassu discutem o papel do jornalismo frente às mudanças políticas, ambientais e energéticas. Crédito: Malu Carvalho

Marcelo Lins e Arthur Ituassu discutem o papel do jornalismo frente às mudanças políticas, ambientais e energéticas. Crédito: Malu Carvalho

 

O Departamento de Comunicação da PUC-Rio lançou, no dia 29 de maio, o ResenhaCOM, novo ciclo de encontros que propõe diálogos entre teoria e prática sobre temas urgentes da sociedade. Com a participação de um professor da casa e um profissional do mercado, a ideia é oferecer um olhar da Comunicação para as diferentes questões contemporâneas. No primeiro encontro, política, meio ambiente e tecnologia no contexto internacional guiaram a conversa entre o professor e pesquisador Arthur Ituassu (PPGCOM/PUC-Rio) e o jornalista Marcelo Lins, da GloboNews e ex-aluno do DCOM. Eles discutiram os desafios do jornalismo diante das múltiplas transições globais em curso. A sala K102 ficou lotada e o público, formado por alunos e professores, participou ativamente com perguntas e comentários. 

Como essa primeira edição, com foco nas grandes transições contemporâneas, dialoga com os desafios enfrentados pelos estudantes e futuros profissionais de comunicação?

Arthur Ituassu: A gente vive em uma era de transições. Desde o fim da Guerra Fria, em que antes se tinha um sistema muito estável, previsível, rígido, a gente vive em uma era de transições – para citar Eric Hobsbawm, que escreveu sobre as eras importantes da história. Essas mudanças constantes são fundamentais para formar um profissional de Comunicação. Como formar esse profissional dentro de um ambiente em constante transformação? É um desafio que o Departamento enfrenta e discute o tempo todo de forma a aprimorar a excelência que a gente já produz na PUC-Rio. 

A academia tende a olhar para as transformações em longo prazo, enquanto o jornalismo lida com o imediato. Como você acredita que essas duas abordagens podem se complementar no ensino da comunicação?

Ituassu: Eu costumo dizer que hoje o jornalismo está em transição e a universidade também. A gente tem uma certa impressão que defender a universidade é defender o jornalismo, como defender o jornalismo e a universidade é também defender a democracia. Virou uma questão ética, na verdade. Em um mundo de transformações, em quem você confia? Quem é legítimo? Quem traz legitimidade para falar e ensinar? Enfim, para garantir a liberdade de expressão, para garantir a participação política, garantir o dissenso político. É a democracia, é a universidade, é o jornalismo. 

Que fatores influenciam a descrença na democracia na América Latina e como isto influencia o jornalismo?

Ituassu: A gente tem uma série de fatores tradicionais de descrença nos governos e na democracia na América Latina. Em especial, a gente vê uma dificuldade muito grande dos regimes conseguirem lidar com os problemas crônicos da região, como corrupção, violência e desigualdade. Hoje, com as mídias digitais, isso ganha um novo sentido de organização da insatisfação pelo lado da demanda. Do lado da oferta, por conta das mídias digitais e da materialidade do sistema, a possibilidade de um discurso mais radical que fala com essa insatisfação e aí, nesse sentido, tensiona muito as instituições e a democracia na região. 

Como o jornalismo internacional tem se adaptado para cobrir as transformações políticas globais, especialmente em tempos de desinformação e polarização?

Marcelo Lins: Aos trancos e barrancos e tudo ao mesmo tempo agora. Não tem muito tempo para pensar, tem muita coisa acontecendo, tem muito emissor de informação não exatamente jornalística, mas que a gente não pode ignorar, isto às vezes confunde mais do que ajuda. Ao mesmo tempo, a tecnologia contribui para quem quer fazer jornalismo de qualidade. Quem tiver disposição de fazer um bom jornalismo internacional, de olho nos contextos, nos interesses, nos personagens, consegue fazê-lo. Não é simples, há demanda imediata muito grande, mas dá para fazer. 

De que forma a transição energética e a emergência climática moldam a pauta internacional nos grandes veículos de comunicação?

Lins: Eu diria que, infelizmente, não estão moldando, apesar de ser um consenso científico de que a emergência climática é o maior desafio, o maior perigo para a humanidade hoje, para a subsistência do ser humano no planeta. Isto não ganha as manchetes e o espaço que merece, porque há uma tendência ainda de tratar esses temas como temas nichados, temas que têm a ver com uma parcela de militantes, de pesquisadores. Quando isto se mistura com, por exemplo, noticiário econômico, a tendência é que esta emergência seja diminuída. Muitas vezes a imprensa vai a reboque dos fenômenos climáticos extremos e das consequências mais nefastas da crise climática, porque não tem como ser ignorado. É muito mais algo reativo do que planejado. 

Com o avanço acelerado das tecnologias digitais, como inteligência artificial e algoritmos, quais os maiores desafios e oportunidades que você enxerga para o jornalismo internacional?

Lins: Acho que o desafio é saber utilizar essa tecnologia a favor do bom jornalismo e não usar como muleta para diminuir o trabalho. O jornalismo é complexo, delicado e envolve vários fatores. O fator humano, nele, ainda é absolutamente fundamental, porque contempla o improviso, a adaptação, o olhar para o que não é o mais óbvio, e isto a inteligência artificial não faz. 

Na conversa, vocês abordaram as diferentes transições que o mundo está passando. Como elas se conectam? 

Lins: A gente tende a compartimentar porque fica mais simples, mais objetivo, mais direto você olhar para as coisas como se fossem separadas, mas no fundo elas estão todas interconectadas. Não dá para cuidar de uma transição ignorando a outra. Para o jornalismo, especificamente, a oportunidade de mostrar como as transições se interconectam, como que você mexer aqui vai afetar ali. Isso eu acho que é um desafio dos mais prazerosos para quem gosta de trabalhar com informação, com palavra, com imagem, com som, para tentar entender, tentar explicar e tentar dar a quem recebe a informação a capacidade de formar um juízo próprio de valor e tomar decisões.